Thesaurus editora, Brasília, 2011

 

poética

Cuadro de texto: poéticas en antologías

Antologia Pessoal

(Prólogo do autor)

 

             Escrever poesia? Que atrevimento! Pretender falar com a nossa cara noturna é sem dúvida uma amável loucura. Um propósito descabelado, já sei, além de nossas possibilidades. Mas é disso que se trata, de romper fugazmente, em alguns instantes privilegiados, a muralha de pedra da rotina. Abrir uma brecha em nosso dia programado e cidadão, enganar a prisão do relógio, para uma fuga ao interior, no resgate de um punhado de deslumbrantes imagens, às costas, afinal - que brisa alegre, que enxurrada de imagens, que vertigem - da intuição.  Uma aventura de liberdade criadora; insensata, rebelde, no justo avesso do cálculo racional, de calendários e sistemas  (a degradada álgebra da contabilidade, o tenebroso diagrama do economista, a cimeira infinita da produção em série e a indústria cultural). Uma exploração onde a própria viagem é uma incógnita que se vai dissolvendo passo a passo: dissipando-se, viva, na escritura do poema. A dança que assistimos tremendo de desejo, enquanto um a um os véus caem por terra, revelando o que apenas sonhamos, o corpo de bruma que se furta à realidade, o sonho que entesouramos profundamente sem percebê-lo. Poeta é quem se entrega ao afã de deslizar os véus  da linguagem, fazer brotar o que repousa ignorado, torná-lo carne viva nas palavras, reavivando as fontes adormecidas do desejo. A este entusiasmo dediquei a minha vida.

           Nasci em São Paulo, filho de espanhóis. Dois idiomas me embalaram nos primeiros anos de vida. Aprendi a ler e escrever em português. Assim é que comecei a falar espanhol com fluidez aos sete anos, quando minha família regressou a Madri. É certo que apenas um ano mais tarde eu começava a devorar romances e poesia em castelhano, e jamais escrevi em outra língua. Concluo também que desde então minha identidade ficou para sempre dividida entre uma primeira infância brasileira e uma adolescência e juventude espanholas. Quando menino sonhava com um país desconhecido, distante pátria de meus pais, do outro lado do mar: um mítico país chamado Espanha. Uma travessia transatlântica rasgou minha vida em duas. Desde então relembro um Brasil que hoje existe apenas em meus sonhos.

           Suspeito que esta fratura vital, este desgarramento do coração experimentado num momento crucial da vida,  é a origem de todas as minhas fronteiras. Em verdade, vivi dividido em duas paixões. Poeta e professor de filosofia, percorri os caminhos da palavra tentando vislumbrar os do pensamento. Durante anos ambas ladeiras digladiaram dentro de mim, cresceram de costas, se enfrentaram. Nesta última década ousei cruzar a fronteira, reatar minhas raízes: amadurecer em ambas frentes, finalmente enlaçadas. 

           Acho que desta minha dupla natureza brotam minhas obsessões relacionadas com a busca de uma identidade, assim como a fusão da lírica com o gênero neofantástico dos meus primeiros livros. Desgarrado entre duas pátrias a poesia me ofereceu um espaço imaginário onde sentir-me finalmente em casa. Dessa dualidade brota a vida; de minha fratura, a criação.  Como tantos outros escritores desterrados, eu busquei sem cessar um rosto em que reconhecer-me. Meu sujeito poético reconstitui-se, uma e outra vez, sempre em projeto, desdobrando-se no outro ou sonhando a si mesmo desde diversas perspectivas. Um sujeito dinâmico, em fuga, sempre disposto a cruzar o limite ao outro lado.

          Desde as minha primeiras leituras senti afinidade com simbolistas e surrealistas: a vertente romântica da poesia da modernidade. Rimbaud e Baudelaire sempre me acompanham.  Existe algo em mim de filho ou neto tanto do surrealismo francês (Breton) como da vanguarda espanhola (Lorca, Cernuda, Aleixandre...) e latino-americana  (Vallejo, Huidobro, Neruda, Paz...). Pessoa e suas mil máscaras pulsa no fundo de muitos de meus desdobramentos de identidade. Passei mais de uma década a cruzar o espelho uma e outra vez, das mãos de Lewis Carrol. Sentia-me então na órbita de contistas neofantásticos como meu admirado Julio Cortázar e tentei cultivar cenas simbólicas onde fundiam-se a narrativa "real maravilhosa" hispano-americana com o realismo poético espanhol.

          Dois descobrimentos foram vitais para mim, no plano pessoal e no criativo. A psicanálise  revelou-me  o espaço interior onde confluem a poesia e o pensamento. Os símbolos ofereceram-me a ponte entre consciente e inconsciente, realidade e imaginação. Escutando as suas profundas sugestões tentei salvar as fronteiras que me habitam, criar um território onde se fundamentam, com naturalidade, minha formação filosófica e minha vocação poética. Buscando esse lugar escrevi Uma poética do limite, um ensaio onde pretendi fundir minhas leituras de filosofia, teoria literária e psicanálise, sedimentadas ao longo dos anos, numa proposta de interpretação da poesia dos tempos atuais. Foi um esforço titânico, mas valeu a pena. Tive que empreender tão longa viagem para encontrar a mim mesmo, explicar-me em claro-escuro minha experiência no mistério da palavra. O livro deu-me uma inédita liberdade de criação, um território muito mais vasto para explorar.

          Em meu último livro, La vida nueva, meus sonhos de juventude venceram, relegando a um segundo plano meus recursos narrativos para dar voz a uma poesia mais onírica, mais dedicada ao assomos inesperados do inconsciente. No meu "realismo visionário" reduziu-se minha ladeira realista para que o fenômeno visionário, o resplendor do símbolo, pudesse expandir-se plenamente.  Tentando ser mais fiel a mim mesmo, escrever numa perspectiva mais pessoal, dei com a maior das surpresas: o reconhecimento. Quando me entreguei ao meu desejo sem concessões, quando deixei mais que nunca a escritura fluir em liberdade, La vida nueva recebeu o Prêmio Nacional da Crítica.

          O livro inaugurava um novo ciclo em minha trajetória, um arquipélago de caminhos a explorar. Estou embarcado na aventura de escrever poemas que se desprendam, cresçam, se ramifiquem como organismos vivos.  Deixei para trás a fé racionalista da harmonia do texto "bem escrito", construído com régua e esquadro. Tento fugir do poema fechado em sua composição, elaborado à semelhança  de um mecanismo de relojoaria, para entregar-me à surpresa repentina, à chispa da intuição que desborda as margens. Um novo modo de sentir, uma nova maneira de escrever. Meu sonho agora é que um tremor vital percorra meus versos. Semear fissuras, para que o poema respire através. Ser fiel à intuição, às suas veladas sugestões, para que a vida abra caminho pelas palavras.

            A poesia é uma amante generosa. Exige de nós a vida inteira, sim, mas nos devolve muito mais no ouro dos sonhos. Nesta ocasião vim dar tinta e papel às minhas fantasias mais queridas. Uma seleção de meus poemas regressa à pátria de minha infância.  É verdade, a única verdade, já soa a sirene. Finalmente empreendo a viagem de volta, sinto-me uma vez mais no tombadilho do transatlântico  que rompeu minha vida em duas. Mas desta vez o navio não me rasga. Já não traça uma fronteira intransponível, uma cerca de arames de anos e distâncias. Nas mesmas páginas meus poemas começam a falar português.  As duas línguas que sulcam meu imaginário, minhas duas margens da memória e sensibilidade, olham-se frente a frente, conversam sobre suas coisas. Acredito que serão amigas, gêmeos separados pelo mar.

“Antologia pessoal”: meus dois passaportes fundem-se num só. 

 

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