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A PAZ DAS MARÉS

 

Criatura do ar submerge-te nas águas

desliza-te até o fundo forasteiro
morde o tubo o oxigênio circula em teus pulmões
ingrávido teu corpo sulcando a espessura
nadas entre duas águas avanças em sigilo
como um menino que intui que um segredo o aguarda

te leva a corrente te abandonas
nadas como se o tempo estivesse detido

silêncio mineral a paz das marés

nadas como se o ar não fosse já teu espaço
diante de ti despe-se um jardim de outro mundo

contemplas seus prodígios como se despertasses
a um destino estrangeiro a um sonho mais feliz

recorres para trás as estações regressas

ao ventre da mãe estás nascendo agora
para uma nova inocência onde deixar-se ser
sem raízes fluir entre os peixes ágil
não há futuro ou passado tudo é agora e sempre
veloz sulca as passagens a rocha e o coral

com as mãos nuas regressa à superfície

rompe a pele da água deixa atrás o fulgor
respira ar puro como um recém nascido

irá contigo sempre a paz das marés

 

 

CASA NA ÁRVORE

 

Na copa de uma árvore construirei nossa casa,
com pregos e tábuas e ilusão e um martelo

alçarei entre os ramos  pisos, tetos, paredes,
quartos em espiral, secretas passagens
onde opera o acaso o dom dos encontros
e de repente amanhece se me fitas no fundo,
por onde o vento busca o seu refúgio,
madeira na madeira, estralam as estações,
vêm visitar-nos os amigos,
cheira à café, cheira à árvore em que nos acolhemos,

ao rumor das folhas, à terra
onde brota o impulso, sua sede de espaços,
sente-se ali o verdor das promessas,
casa e árvore fundidos, uma só criatura,
é-se feliz de algum modo impreciso e vital,
com os anos a árvore vai brotando seus ramos,

ganha corpo, se inclina para as nuvens
e logo a casa já subiu uns metros

e até o ar é mais puro, mais amplo o horizonte,
as estrelas fugazes proliferam, agora

vigia a espessura, há luz na janela,
protegida de tudo, suspensa,

luz caseira de noite, resplendor,
e uma escada de corda entre os ramos,
se sobes pela escada não tem volta,
no cume do vento construirei nossa casa.

 

 

FÍSICA APLICADA

 

Supondo que um homem, uma mulher
partem de pontos divergentes, dispersos em um plano,

lugares que se ignoram entre si,
e à velocidade do entusiasmo
empreendem a aventura, saem a caminhar,

vão por aí remando em águas turvas,
vão por aí escutando o vasto germinar das sementes,
à espreita, em sigilo, sulcando a terra à esperança,
supondo que traçam trajetórias de curso irregular,
cada qual a seu amor, virando ao vento,
trajetórias quebradas cujo sentido pode

ao mínimo tremor girar para o vazio,

supondo o afã, a busca, a sede,
o sonho do gozo, a ilusão e a ausência,
calculemos, num golpe de intuição,
quantas vezes terão as trajetórias
que cruzar-se no brilho de uns olhos,
uns lábios que incitam, umas mãos que assentem,

para incendiar-se a um tempo, homem e mulher, semear a terra

de chamas como rajadas de chuva.

 

 

PROMESSAS

 

Prometo abandonar-me nas marés,
incorporar-me ao caos, ser eu na multidão,
e desde ali assomado prometo contemplar

tantas coisas que crescem

e germinam.

Prometo ser flexível como a árvore,
ser o junco e as águas, as velas desdobradas,
e entregado à brisa prometo ir ocupando
as casas que me restam
por viver.

E prometo também à deriva
lançar-me ao encontro do dom inesperado
e ao cruzar as fronteiras prometo confiar
cegamente na flecha
do desejo.

 

 

CICLOS

 

A árvore solitária que no cume
empalidece, se incendeia, estala em sombras
desde o amanhecer até o ocaso
reflete em noite e luz um astro em fuga,

goza o ciclo incessante em carne própria.

 

Meu sonho é mais audaz:
reflexo de uma vida em seu transcurso,
uma única jornada
para ver crepitar as estações.

 

 

CANÇÃO DA ESPERA 

 

Há cutelos que habitam as dobras da roupa,
cavalos que repousam na pedra,
tubarões com mandíbulas de névoa e olhos frios,

borbulhas que ao ar irisam em anil
até estalar no roce da areia


porque ainda não chegaste, porque vens
a caminho de outra parte, porque chegas
com o negror do luto, com o branco nupcial,
com um ramo de rosas desfolhado na mão.


Há cinzas ardentes que adormecem no orvalho,

solenes as sirenas dos transbordadores,
leitos poeirentos que se afogam de sede
e aves cegas que voam em círculos, cetáceos

encalhados em rochas de gelo à deriva


porque remota vens, prisioneira de um vento
do deserto que apaga os vestígios dos pássaros,

porque a mim te encaminhas com os olhos ausentes,
com os passos sem trilha das aparições.

 

Mas há também tambores que incitam à dança,
o eco do riso ressoa no espaço,

há pássaros que bebem nos poros do ar,
o menino e a menina que brincam de médicos

e o clamor da selva ao despertar


porque já vais salvando o horizonte,
vás alheia infiltrando-te em minha pele,

em tua ausência já a carne abre passagem,
a orquestra preparada, os balões coloridos
,

e ao teu encontro surgem-me os leopardos

porque tu és minha festa, meu centro e agonia.

 

 

Antologia pessoal

 (ed.bilíngüe espanhol-português)

 

Tradução: Antonio Miranda

 

 Thesaurus Editora, Brasília, 2011 (192 pgs.)

 versão

 imprimível

Cuadro de texto: Artículo-Entrevista
El Día - Dic 2011
Cuadro de texto: Prólogo do autor
(versão original em português)

Entrevista de Antonio Miranda

(descer ao fim da página)